segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Saúde. Ou falta dela.

Mais um domingo de lava-estende-cozinha-limpa-esfrega-enxuga-guarda-esfrega-limpa-cozinha-lava-estende-cozinha-lava-enxuga-guarda-cozinha-lava-lava-lava... E isso já tá me fazendo mal, porque hoje de manhã me lembrei de uma coisa: "Puxa vida! Esqueci de limpar o fogão!". rss
Sábado eu passei na casa do meu vô dar um beijinho nele antes que ele morra.
Uns dois meses atrás meu vô descobriu um câncer no esôfago em estágio avançado. Ele tem tumores no sistema linfático também. Meu vô parecia um gorila. Hoje ele parece (e é) um moribundo. Magro, fraco, murcho. Como o tumor não deixa ele se alimentar (fechou o canal até o estômago), há umas duas semanas ele teve que colocar uma sonda, do nariz até o estômago. Se alimenta com uma papinha que tem que colocar com uma seringa na sonda. Tem uma pessoa na casa dele só pra fazer isso, mas minha tia e minha mãe se revezam num plantão no fim de semana e passam lá pelo menos duas vezes por dia. Ele sente dor e falou que queria que acabasse logo tudo isso. Sexta-feira retrasada ele fez a primeira sessão de quimioterapia e passou muito mal o resto da semana. Sexta passada ele faria a segunda sessão, mas o médico desaconselhou. Vai ser muito sofrimento pra provavelmente nenhuma melhora. O médico falou que os sintomas que ele tem agora não são mais reação à quimio, e sim o progresso da doença.
E na quinta-feira passada a besta aqui chegou no quarto e perguntou "Oi, vô, tudo bom?". Ele não fala muito porque a sonda atrapalha e ele sente enjoo por causa disso. Ele fez que sim com a cabeça, piscou, e fez que não. Ele tava deitado, coberto, com a sonda presa no nariz por um esparadrapo e com um gorrinho de lã. Pequeno. Frágil. Moribundo. Dei um beijinho na testa dele e saí. Pra não deprimir mais ainda a minha vó, lá no portão da casa dela, falei que a lua tava bonita e ela também saiu pra ver.
Meu vô sempre foi um homem machista, grosseiro, dono da verdade. Jamais fiz uma refeição na casa dele em que ele não criticasse a comida da minha vó. "Muito seco", "muito duro", "muita mistura", "pouca mistura", "polenta de novo?", "sem sal", "muito salgado". Tudo mentira, a comida da minha vó sempre foi deliciosa. Ele é que tinha necessidade de criticar tudo.
Claro que gosto do meu vô, que me lembro de bons momentos com ele, que teve momentos em que ele foi um homem bom, mas foram minoria. E não estou sendo cruel nem fria, só realista. Eu sei que quanto mais rápido ele morrer, mais rápido o sofrimento dele acaba, e mais rápido acaba a agonia da minha vó.
Quando cheguei em casa depois de visitá-lo, chorei. Não tanto pela falta que ele vai fazer, mas pelo vazio que vai ficar na minha vó, por quanto ela vai sofrer. Chorei pela estranheza que me causa a morte, pela dificuldade que tenho em lidar com ela.
Minha mãe e minha tia estão dando todo o apoio, fazendo tudo o que precisa ser feito, falando com médicos e ficando a par dos procedimentos até o final. Minha mãe ficou só umas três horas em casa esse fim de semana, o resto do tempo ela estava ajudando meu vô a ir ao banheiro, alimentando-o, hidratando-o, e enquanto ele dormia, jogou baralho com a minha vó pra distraí-la.
E com tanto sacrifício que minha mãe tem feito, o mínimo que eu posso fazer é deixar a casa em ordem e deixar tudo pronto pra que ela não tenha que se preocupar, ainda por cima, em fazer o almoço da semana. Frente ao que minha mãe tem feito, não tenho nem coragem de reclamar. Então vambora lavar-estender-cozinhar-lavar-enxugar-guardar-cozinhar-esfregar-lavar-lavar-lavar...

Um comentário:

Marcela disse...

A verdade é que as pessoas não ficam melhores depois que estão doentes ou morrem, mas a gente sempre fica nostálgica dos bons momentos vividos juntos. Eu tb perdi minha avó, que me criou mas era uma pessoa de temperamento bem difícil, e hoje bem que gostaria de voltar no tempo pra dar mais uns beijinhos que ficaram pelo caminho. Muita força nesta hora.